Dia do Livro

SEGREDO DOS LIVROS

Aproveitando-se de uma ausência dos pais, Sara e Gabriel começam a falar a respeito do querido avô que haviam perdido há pouco, por estar já bem velhinho.

Sara, de dezesseis anos, disse para o Gabriel, de doze:

Você sabia que o vovô sempre deixava algum dinheiro escondido nos livros de sua biblioteca para que eu procurasse?

- Ué, e por que ele já não dava diretamente na sua mão?

- Se liga, Biel, ele queria que eu pegasse o bichinho dos livros, assim, como ele amava cada um daqueles exemplares raros de sua coleção, eu também passaria a ter o mesmo gosto dele. A condição era a de não derrubar ou danificar as páginas.

- Eu não sabia que livros tinham bichinhos, mas achar a grana parecia moleza, não?

- Não era tão simples assim. A página que tava a nota deveria ser lida e decorada, e algo dela eu tinha de guardar para as perguntinhas que ele sempre fazia.

- Ah, agora entendi essa sua mania de ler tudo e ter mil histórias na cabeça… Vive por aí no mundo da lua, e os olhos presos nos cartazes e propagandas. E eu que achava que era por causa da sopa de letrinhas que você tomava.

- Mas… Sara, pensando bem, será que não tem mais grana por aí?

- Biel, o pior é que ele deixou muito dinheiro num pequeno baú para quem descobrir o  enigma que eu encontrei num livro antigo, chamado Atlântida – Diálogos de Platão.

- Plá o quê? Esse cara não tinha um nominho mais bonito, não?

- Mostre-me logo esse enigma, Sara!

Enquanto tentava entender o enigma, Gabriel tropeça num dos livros.

- Biel, cuidado com os livros do vovô, são todos raros e alguns estão há muitos e muitos anos na nossa família. Não sei se você sabe, os nossos antepassados pertecem a uma ordem de escribas da idade média.

- Escriba, o que é um escriba?

- Os escribas eram homens de classe nobre, encarregados de escrever nos papiros ou papéis tudo aquilo que era transmitido por quem tinha o saber ou tratavam de copiar quando havia a necessidade da distribuição para mais de uma pessoa ou autoridade.

- Na religião judaica, por exemplo, os escribas tinham papel destacado na sociedade ou ao lado do sumo sacerdote. Eles se encarregavam dos escritos da bíblia por meio de pergaminhos, usando a tinta para desenhar letra por letra, com bico de pena.

- Sara, você poderia traduzir pra mim a palavra per-ga-mi-nho?

- Claro, é o nome dado a uma pele de animal, geralmente de cabra, carneiro, cordeiro ou ovelha, preparada especialmente para nela se escrever.

- Você não sabia, Biel, que o livro, além do conhecimento, ele traz também mensagens subliminares.

- O que é isso?

- São textos dentro de outros textos ou uma mensagem dentro da outra mensagem. É como um bolo com várias camadas e a cobertura de chocolate. A mensagem principal que se quer passar é apenas uma das camadas, normalmente a mais interna.

- Puxa, quanto mistério!

- Bem, vamos ao que interessa, Biel.

- Sim, vamos tentar desvendar estas curvas formadas pela letra “u”.

- Puxa, Pedro Bó, não é que você me fez acordar depois de tanto tempo matutando sobre este papel!

- Como assim, Cara-pálida?

- Você, sem querer, iluminou o caminho de “us”. PER feito de US, então: PER+FEITO+DE+US, isto é, PERFEITO DEUS ou Deus é perfeito. Esta é a dica. O mapa do tesouro está dentro do livro sagrado! Sara falava eufórica cada palavra, com uma alegria indizível por ter encontrado a resposta que ela tanto esperava.

- Viu, resolvi tudo pra você! Disse Gabriel, tentando ser engraçado.

- Qual é, ô sabe-tudo, ainda temos um problema a resolver. O vovô não tinha uma só bíblia. Temos aqui uma cópia autêntica da septuaginta, que é a tradução das escrituras do hebraico para o grego, também o livro da lei, ou a Torá, também existe aqui uma versão da Vulgata, uma edição antiga da bíblia do King James, uma bíblia de estudo do Scofield e ele nos deixou também a versão bíblica traduzida pelo português João Ferreira de Almeida. Mas, de todas elas, a que ele mais gostava é a bíblia de Gutenberg, um exemplar raro da primeira edição.

- Caramba, estou tonto com tanto nome, mas o que é a Torá e quem foi esse Gutenberg?

- Ele era alemão e criou uma prensa de tipos móveis para editar a bíblia. A ideia dele era que todos tivessem acesso a palavra de Deus, até então restrita ao clero.

- Torá é o livro sagrado dos judeus. Nele decodificaram previsões para os principais acontecimentos futuros, por meio do Código da Bíblia. Este livro tem muita importância para o Judaísmo, assim como o Alcorão é vital para o Islamismo.

- E quando a bíblia chegou ao povo, Sara?

- Biel, só para você ter uma ideia, quando o Brasil foi descoberto, a bíblia de Gutenberg já tinha 50 anos!

Enquanto falava, Sara empurrava a comprida escada pelos trilhos da bibioteca, até chegar diante da prateleira onde estava um dos livros mais pesados da estante.

Subiu degrau por degrau até se acercar do grande e volumoso livro de um marrom desbotado, que estava deitado na terceira fila, lugar que ninguém mexia. Na capa, havia adornos metálicos, com a estrela de Davi no centro. Sem descer, abriu ali a pesada capa e deu de cara com a primeira frase: “In principio creavit Deus caelum et terram” (No princípio criou Deus os céus e a terra).

Contendo o anseio de ler aquilo que não entendia, pois estava tudo em Latim, Sara começou a folhear as muitas páginas até dar de cara com uma folha solta.

- Achei! Gritou de tanta felicidade que quase caiu lá de cima.

- O que você vê aí, Sara?

- Apenas uma frase: “Um tesouro não subsiste sem a verdade!”.

- O que quer dizer isso, Sara?

- Calma, estou pensando…

- Existir sob, em baixo ou debaixo? Já sei! A Bíblia é a Verdade, e o tesouro está sob! É isso!

Imediatamente, Sara usou toda sua força para empurrar o tomo um pouquinho mais adiante e percebeu que debaixo do grande livro havia uma tampa falsa.

Afastou outros livros para ganhar espaço e conseguiu, com o auxilio de um grampo de cabelo, abrir a portinhola que se encaixava no vão perfeitamente.

- Caramba!

- O que você achou, Sara?

- Um livro tão antigo que poderia ter estado na Biblioteca de Alexandria. É uma coletânea em sânscrito, segundo a nota explicativa, chamado Vedas, com hinos, cânticos e mantras! Você não tem ideia do valor que esta raridade tem.

- Sara, sinto muito, mas para mim é tudo papel velho, cheirando a mofo e cheio de ácaros.

- Não diga isso, espertinho!

- Sara, eu queria mesmo era achar dindim para comprar pipoca e sorvete, mas, pelo visto, a gente deu com os burros n’água, né?

- Biel, você não se deu conta da riqueza encerrada aqui dentro!

- Sara, pra acabar esse papo cabeça, com a invenção de Gutenberg, nossos familiares passaram a viver de quê?

- Alguns não souberam lidar com a mudança, mas a maioria passou a trabalhar na editoração e venda de livros, também como livreiros e com livrarias. A coisa deixou de ser uma arte e passou para o lado comercial, uma questão de números. Mas isso tudo foi bom para o povo.

- Por quê?

- É que isso barateou o livro, tornando-o disponível a todos. Os grande escritores e poetas passaram a ser lidos por todas as classes sociais, tais como William Shakespeare, Cervantes, Machado de Assis, Camões, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Sócrates, Platão, Aristóteles, as novas ideias de Sigmund Freud, os avanços científicos e as notícias que passaram a chegar facilmente a todas as casas, por meio de jornais e revistas.

- Puxa, você tem razão, Sara, a ideia de Gutenberg é pop!

- Sara, e essas raridades que você tanto fala vão ficar aqui dentro só para nós ou vamos emprestar pra todo mundo?

- Nosso pai tem um projeto para disponibilizar tudo eletronicamente.

- Como assim?

- Com o papel cada vez mais escasso, a informática há muito tempo é a solução para viabilizar o acesso ao conhecimento de forma prática e muito mais barata, evitando o desmatamento, com a consequente extinção das florestas, preservando o meio ambiente.

- Hoje já temos o e-book, isto é, o livro eletrônico, que não carece mais do suporte tradicional, estão disponíveis em computadores pessoais, palm, tablets, etc. Futuramente o papel irá sumir, e os escritores contarão suas histórias somente no formato on-line ou a viva voz, como antigamente.

- Puxa, isso é muito legal! E a ideia de Gutenberg continua valendo, não é Sara?

Autor José Maria Cavalcanti

Cinema

 

 A Invenção de Hugo Cabret

Sinopse

Hugo Cabret é um menino órfão que vive escondido na central de trem de Paris dos anos 1930. Esgueirando-se por passagens secretas, Hugo cuida dos gigantescos relógios do lugar – escuta seus compassos, observa os enormes ponteiros e responsabiliza-se pelo funcionamento das máquinas. A sobrevivência de Hugo depende do anonimato – ele tenta se manter invisível porque guarda um incrível segredo, que é posto em risco quando o severo dono da loja de brinquedos da estação e sua afilhada cruzam o caminho do garoto. Um desenho enigmático, um caderno valioso, uma chave roubada e um homem mecânico estão no centro desta intrincada e imprevisível história, que, narrada por texto e imagens, mistura elementos dos quadrinhos e do cinema, oferecendo uma diferente e emocionante experiência de leitura.

Resenha

A Invenção de Hugo Cabret, do norte-americano Brian Selznick
O Livro chama atenção por sua forma de ser impresso e no modo de contar sua historia pois o livro da uma visão cinematográfica ao leitor, deixando de lado a parte descritiva e dando lugar a parte visual que e pouca explorada pelos livros convencionais.
A arte e impecável fazendo você imaginar a movimentação dos personagens, como seus sentimentos somente olhando as pelas artes espalhadas pelas paginas negras do livro, alem é claro ambientação da historia que se passa na Paris dos anos 30.
A historia também é muito inovador tanto que esta sendo adaptado para o cinema, quem teve a idéia de adaptar esta obra vai encontrar grande facilidade, pois vai pular a parte de storyboard.
O livro é impecável, pois mesmo com mais  500 paginas ele ira agradar do mais jovem leitor ate o maior admirador de arte, literatura, cinema e algo mais.
Este livro eu deixei em uma tarde com meu irmão de 9 anos a noite ele já estava comentando que achou muito “legal” o livro.
Fonte:  http://ojovemescritor.com

ESCRITORES E LIVROS

 

LER E ESCREVER

Escrever é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.

Machado de Assis

O melhor de tudo é o que penso e sinto, pelo menos posso escrever; senão, me asfixiaria completamente.

Ann Frank

 

 

As duas cartas de amor mais difíceis de escrever são a primeira e a última.

Francesco Petrarca

Escrever é ter a companhia do outro de nós que escreve.

Vergílio Ferreira

 

 

A maior parte do tempo de um escritor é passado na leitura, para depois escrever; uma pessoa revira metade de uma biblioteca para fazer um só livro.

Samuel Johnson

O escritor é um homem que mais do que qualquer outro tem dificuldade para escrever.

Thomas Mann

 

Dá tanto trabalho escrever um livro mau como um bom; ele brota com igual sinceridade da alma do autor.

Aldous Huxley

 

 

Escrever é um ócio muito trabalhoso.

Johann Goethe

Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideas.

Pablo Neruda

 

A leitura torna o homem completo; a conversação torna-o ágil; e o escrever dá-lhe precisão.

Francis Bacon

 

 

 

Uma prova difícil

 

AMIGUINHOS DO CÉU

 

Acordei com minha mãe no meu ouvido, logo cedinho, em pleno domingo!

 - Gustavo, você pensa que tenho o dia inteiro para esperar você prá tomar café! Amanhã é dia de prova, menino, vê se acorda, vai tomar banho e escovar os dentes! Hoje você não tem televisão nem vídeo game, tem que estudar, senão a gente não vai poder viajar de férias!

Puxa, pensou Gustavo, o jeito de falar aquelas últimas palavras era como colocar o mundo sobre suas costas. Além de abrir mão de brincar naquele dia lindo, teria que estudar todo o tempo para tirar um oito em Geografia, senão ninguém poderia viajar.

Ainda esticando o corpo, arrastei-me em direção ao banheiro para fazer o asseio corporal. Tomei café e observei que todo meu material escolar estava sobre a mesa. Percebi logo que minha mãe não estava para brincadeira e não adiantaria tentar qualquer joguinho com ela. A saída era estudar ou fingir o dia inteiro.

Como havia ficado de mau humor, pouco coisa entrava na minha cabeça, ainda mais que o professor era casca grossa e certamente iria pegar pesado na prova.

Ele não havia caído nas graças da turma, muito menos eu tinha gostado dele. Onde já se viu, mal chegou à sala, como professor substituto, e já queria impor um montão de coisas. Parecia um manda-chuva a exigir respeito.

O tempo estava igual a mim, preguiçoso, mas finalmente se entregou, e caiu a noite.

Minha mãe já não poderia continuar exigindo nada de mim, a não ser preparar meu lanche para eu poder ir dormir. Ela estava certa que eu havia estudado muito, e eu tinha certeza que estava dando um curto circuito na minha cabeça com toda aquela confusão de nomes de estados, capitais, datas e percentuais.

Os mapas geográficos desfilavam em minha mente, baralhando localizações antes já decoradas.

Com uma espécie de estafa mental, caí na cama como uma pedra, e nem sequer deu tempo de elevar um pedido para Deus para me sair bem na prova.

O sono veio ligeiro, e logo me vi viajando por entre nuvens em um céu azulado.

Não demorou muito para eu me dar conta que estava em meio a pássaros. E não só isso, eu estava na liderança deles. Voava à frente, cortando os ares e diminuindo a intensidade da força do vento, possibilitando um menor esforço para meus irmãos que vinham logo atrás, naquele imenso “V” de nossa formação aérea.

Eu conduzia o grupo pelo Brasil afora. Depois de sobrevoar uma montanha imensa, com sabor de açúcar, com bondinhos subindo e descendo, nos encantamos com ta beleza imensa daquele lindo lugar de praias.

Num piscar de olhos me vi diante de um homem gigantesco, erguido a mais de 700 metros de altura. Desviamos do monumento sobre o Corcovado, no Rio de Janeiro, e continuamos nosso curso aéreo sobre as mais belas capitais brasileiras.

Depois de circular pelo a imensidade da Amazônia, voamos de volta para São Paulo.

Puxa, aquela foi sem dúvida minha maior aventura por céus, climas, montanhas, paisagens e nuvens.

Pegamos chuvas, fortes ventos e muito sol, mas chegamos todos exaustos de tanto voar.

Um novo dia nasceu e de repente escuto uma voz conhecida, vindo de muito longe:

 - Gustavo, vamos! Esqueceu que hoje é a prova?

Era minha mãe, fazendo-me acordar daquele lindo sonho. Depois das correrias de tomar banho e me arrumar, escovar os dentes, tomar café, logo o carro me deixava na escola para a tal prova.

Estava ansioso e um pouco nervoso, pois sabia que teria que tirar uma boa nota, mas não havia estudado tanto assim.

Depois que li a prova, em pouco tempo havia respondido tudo e logo fui entregar a prova ao professor, bem antes de qualquer amigo de classe.

Ansioso com o resultado, perguntei:

- Professor, o senhor poderia dar uma olhadinha na prova, pois necessito de um oito para poder viajar? Mais

A Biblioteca

NOSSA MENTE – UM ACERVO DE LIVROS

 

Este vídeo é mágico, interessantíssimo, porque compara nossa mente com uma biblioteca, comportando muitos livros!

A LUA DA JANELA

 

O MAR, A MONTANHA E OS SONHOS

 

As férias de dezembro eram sempre deliciosas, pois era tempo de imaginar mil passeios à beira mar, catar conchinhas na praia e ver o sol se pôr lá atrás das casas, detrás dos morros. Era bonito ver tanta gente sorrindo em meio daquela festa de cores, felizes com os dias mais lindos do verão. Era chegar ali e logo dava vontade de correr, pular sobre as ondas e depois fazer castelos com a areia molhada. Não muito longe dali, estavam as dunas que separavam o mar dos morros, completando o visual marítimo.

Meu pai sempre alugava uma casa em uma praia diferente do grande litoral norte paulista. Ele parecia estar mais contente naquele período do ano, que até ficava mais tempo comigo, coisa difícil durante a correria das aulas, que mal tinham tempo de me levar para a escola, o que acontecia uma vez ou outra, quando minha mãe tinha algum imprevisto.

Na praia, eu já acordava elétrica dentro das roupas de banho. Dava tempo prá tudo, e o dia parecia não ter fim, como se na estação do calor alguém esticasse as horas, tornando cada minutinho interminável. Dava pena ver aquele restinho de tempo a se escoar rapidinho. Uma tristeza imensa me invadia, como se eu não tivesse aproveitado direito cada segundo precioso que me foi concedido.

Depois da maravilhosa folga longa do final de ano, logo se dava o reinício das aulas, e tudo voltava ao normal. O que compensava era que eu podia rever minhas amigas para trocar informações de tudo que rolou com cada uma delas naquele mesmo período. Voltávamos cada vez mais experientes, com um jeito novo de contar as mesmas coisas, como se fôssemos já pessoas maduras.

O primeiro semestre transcorria lentamente, como quem tem preguiça de passar. Era tudo muito igual, com os mesmos estresses das tarefas e trabalhos escolares, sem contar o clima pavoroso da véspera de cada prova. Mas tudo passava, e logo chegava o recesso do meio do ano.

Eu já sabia de antemão o lugar de sempre que passaríamos nossas miniférias de julho: a casa da minha avó, que ficava no alto da serra. Não que eu não amasse minha vovozinha Nadyr, com seu jeitinho carinhoso de fazer de tudo para me agradar, mas era a falta do que fazer que mais me incomodava.

A diversão na serra era acordar cedo com o galo Pintado, que disparava ao raiar do dia seu canto, como se quisesse acordar todos os animais e pessoas do campo. Ver minha avó na cozinha fazia passar o tempo, e ela estava sempre preparando comidas e doces saborosos. Eu vivia pertinho dela e com ela ia buscar ovos fresquinhos no quintal. Ela dizia que sua galinha preferida ganhou o nome de Tagarela porque sempre anunciava que tinha colocado o ovo. Logo depois do co-co-ri-có, saía ela e eu na maior pressa para apanhar mais um ovo. Depois disso, vovó fazia o bolo de ovos mais gostoso do mundo.

Lá no seu grande terreno dos fundos da casa, acompanhei o nascer da mais linda ninhada de pintinhos que eu já tinha visto. Depois dos 21 dias chocando, a galinha Tagarela caminhava todo orgulhosa, ciscando o terreiro e fazendo brotar o alimento do solo para seus doze lindos pintinhos.

Assim era meu dia até o cair da noite. Depois do jantar, meu prazer era correr pro janelão do meu quarto. Dali eu podia apreciar, naquelas noites frias, o céu todo estrelado, e eu ficava ali perdida, contemplando a lua prateada, em volta daquele montão de pontinhos azuis, que bordavam o imenso manto escuro. Dali eu só saía para dormir, quando já não aguentava mais admirar tanta beleza. Embriagada de sono, fechava a grande janela, continuando a lançar meu olhar pela vidraça para aquele mar de estrelas, que cobria a parte mais alta da Serra da Borborema. Até que minha vista se fechava, entregando-se a um leve sono, que me embalava noite adentro, por um mundo de castelos e contos de fadas.

Assim fui crescendo entre os prazeres do litoral e a beleza da serra. Aprendi que o verão era para meus agitos em contato com o mar, mas o inverno era tempo de ficar quietinha, fazendo planos com os olhos abertos, conectada com a lua, enquanto não era envolvida pelos sonhos.

Autor José Maria Cavalcanti

 

BELA HISTÓRIA

 

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

Para o adulto que for ler esta história para uma criança:
Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…

As mais belas histórias de Rubem Alves
Lisboa, Edições Asa, 2003

MINHA RUAZINHA

 

 

RUAZINHA

 

A rua de chão de terra

Longe do olhar a serra

Ali o rio e a casa da vó

Simples de um lado só

 

                         Roupas secam no varal      

                   O galo canta no quintal

                   E tudo passa bem lento

                     No tal mover do vento  

 

Debaixo do jaboticabal

O mais belo sol matinal

Belas páginas eu lendo

Primavera, é setembro

 

Autor José Maria Cavalcanti 

MUNDO MÁGICO INFANTIL

 INFLUÊNCIA DOS CONTOS DE FADAS

 

À medida que eu mergulhava no mundo mágico infantil, minha cabeça se enchia com todas aquelas fantasias. Embrenhava-me por castelos e florestas com príncipes, fadas, lobos, bruxas e seres monstruosos, todos eles povoando meu universo de criança.

Sim, muitas vezes me vi como a própria chapeuzinho vermelho, transitando e cantarolando pelas ruas da minha cidade, na maior inocência, sem quaisquer preocupações com seres marginais – os lobos maus ou monstros – ou outros tipos de perigos que diziam vagar pelos recantos sombrios da minha cidade, uma das florestas de pedra, com suas modernidades.

Ia para a escola caminhando, sem ser incomodada por olhares maldosos e por qualquer insulto. Assim cresci sem os pânicos de outras amigas, que reportavam coisas que pareciam absurdas, mas que hoje sei que acontecem de montão.

Embora não fosse órfã e tivesse uma mãe linha dura, cresci sem ter medo dos homens e esperando por meu príncipe encantado, como toda menina sonhadora.

Enquanto algumas amigas se desencanaram cedo das fantasias, eu conservei o lado bom dos sonhos. Viajava imaginando-me como “A Bela Adormecida” à espera do mágico beijo que iria me fazer levantar do meu sono profundo e cair nos braços do belo soberano no seu cavalo branco.

Hoje, ao ler Carl Gustav Jung, percebo melhor como funcionam as estruturas mentais no processo do desenvolvimento humano. O famoso Jung diz: “Mitos e contos de fadas expressam processos inconscientes. A narração dos contos revitaliza esses processos e restabelece a simbiose entre consciente e inconsciente”.

Já outro estudioso, Bettelheim, diz que todos os problemas e ansiedades infantis, como a necessidade de amor, do medo e do desamparo, da rejeição e da morte, todos esses ingredientes são colocados nos contos em lugares fora do tempo e do espaço, mas que são percebidos e sendo muito reais para as crianças, ajudando-os a formar e a fortalecer suas personalidades.

Já a psicanálise freudiana propõe o estudo e tratamento do quadro clínico do paciente, analisado e identificando a situação à luz dos contos de fada.

Mesmo lidando com o bem e o mal, lado a lado, os finais eram sempre felizes, indicando a prevalência do bem sobre o mal, e a colocação da esperança nos relacionamentos entre pessoas, com um final positivo.

Estes símbolos que são passados nessas histórias infantis serão meu objeto de estudo, por meio de análise de algumas estórias que povoaram e ainda povoam lindamente o universo mágico infantil.

Fiamma Fabíolla Simões Cavalcanti Rocha – Pedagoga

VIAGEM INCRÍVEL!

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS – ANÁLISE DO LIVRO

O livro é uma verdadeira viagem pelos caminhos mais indecifráveis da mente humana, na qual podem conviver a loucura e a sanidade. O primeiro que ocorre é a fuga da realidade. Tal mecanismo o autor, Lewis Carroll, também usa em seu outro livro As Viagens de Gulliver. Parece vital para o autor que seus personagens mergulhem em enredos fantásticos, onde eles podem desempenhar papéis que chocam com aqueles vividos no mundo real. Na verdade ele se utiliza dessas transformações para tecer sua críticas aos sentimentos menores, tais como a mesquinhez e outras mazelas sociais que são incorporados pelos seus personagens de sua ficção fantástica.

O COELHO – a figura do coelho representa a impulsividade na busca do novo que ela não sabe o que é ou onde encontrar.

A TOCA DO COELHO – representa os labirintos da mente humana, lugar no qual uma pessoa pode se perder ou se encontrar.

AS PORTAS – a vida é cheia de caminhos distintos, restando-nos fazer as escolhas certas. Isto passa por aquilo que acreditamos e o que nos foi passado por nossos pais. Alice começa a ser questionada sobre aquilo que ela pensa e o que ela é, não encontrando as respostas certa, embora não tenha dado a devida importância para tudo isso.

A CHAVE – ela representa nossa decisão, que é o abrir da porta ou do caminho no qual trilharemos nosso destino.

A PORÇÃO MÁGICA – Alice toma um líquido que a faz diminuir de tamanho para que ela ingresse pelos jardins do País das Maravilhas. O mundo irreal escolhido por Lewis Carroll para fazer sua personagem central interagir com coelhos, gatos, cartas, rosas e outros animais falantes, como  tartaruga, rato, tudo no intuito de trabalhar sua sátira comparativa com a sociedade londrinense de sua época.

O GATO – representa o absurdo reprimido.

A LAGARTA – é uma tipologia da confusão e da dúvida.

A RAINHA – representa o poder, com sua figura gigantesca e controladora. Ela exerce sua autoridade com seu exército de cartas.

O REI  – a figura minúscula do rei reflete a relação hierárquica da realeza inglesa, onde a rainha tem ascendência sobre ele.

Em Alice no País das Maravilhas, tudo tem simbolismo e riqueza de significado.

Lastimar o despertar significa a repulsa ao mundo real.

Fiamma Fabíolla Simões Cavalcanti Rocha – Pedagoga

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