Conto da Páscoa

 

 

 

 

aaaovos

CONTO DE PÁSCOA

 

Na véspera do Domingo de Páscoa, Ester estava ansiosa para receber seu ovo e não estava disposta a aguardar o dia seguinte.

Vovó Tita, por sua vez, já havia escondido o ovo da neta num lugar da casa, mas não iria ceder, pois era assim que a mãe dela fazia, e disto ela tinha boas recordações.

Ester, com seus dez anos, era muita esperta e resolveu que primeiramente faria algumas perguntinhas e só depois faria a chantagem emocional para tentar ganhar seu ovo antes da hora.

– Vovó, porque se fala tanto em ovo de Páscoa?

– Pequena Ester, embora no Brasil seja a entrada do Outono, lá onde começou esta tradição é início da Primavera, que é quando a terra volta a se aquecer e a natureza explode exuberante, cheia de vida. Por isso é que o ovo é usado para representar este período. Você se lembra da nossa Pintadinha? Ela aqueceu os ovinhos durante quarenta dias e deles nasceram vários pintinhos.

– Puxa, foi muito legal, vovó. E o coelho, o que tem a ver com isso?

– Dentre os animais, quem se multiplica mais rapidamente são os coelhos, por isso ele também é usado para falar deste período de muita vida, isto é, de muita fertilidade.

– Aí você poderia perguntar o que tudo isso tem a ver com Jesus?

– É, boa pergunta. Afinal, ele não nasceu em dezembro?

– Sim, mas a Páscoa tem a ver com sua morte, pois Jesus veio ao mundo para morrer e nos dar vida, derramando seu sangue na cruz. Aqueles que acreditam n’Ele, tem seus pecados purificados e são renascidos para uma nova vida.

– Como assim, vovó, “nova vida”?

– É porque viver não é só estar com os olhos abertos e poder respirar. Viver tem que ser com alegria. Muitas pessoas esperam que outra pessoa apareça em suas vidas para fazê-las feliz, mas quando se tem Jesus no seu coração, você passa a viver, sendo realmente muito, muito feliz.

– Puxa, vovó, eu sou então muito feliz quando minha mãe me deixa aqui com a senhora.

– Ester, Ester, o que você está querendo?

– Nada, vovó, é só a verdade. Mas e a Páscoa, o que significa?

– Páscoa significa “passar sobre”, isto é, quando a morte vem até você, ela não pode fazer nada, ao perceber que você tem o sangue de Cristo, assim ela passa para outro que ainda não renasceu para esta vida verdadeira.

– Para ficar mais fácil, Ester, vou contar pra você uma linda história que minha mãe me contava, sempre às vésperas do Dia da Páscoa.

– Tá bom, vovó. – a pequena concordava com tudo e, ao mesmo tempo, pensava numa maneira de fazer a vó dar seu ovo.

E contou várias historinhas que ela sabia de cor, até que sua netinha se cansou e pegou no sono.

Você Tita riu consigo mesma, olhando a candura de sua linda netinha. Naquele momento viajou no tempo, recordando-se da filha, que estava viajando a serviço.

E veio o dia seguinte. Ester acordou toda fogosa e, ainda de pijama, começou a sua busca, enquanto a vó se divertia vendo a frustração na carinha da menina toda vez que se equivocava.

Mesmo correndo pra lá e pra cá para fazer um almoço muito especial, vó Tita não cedia aos apelos da menina, que seguia desesperada por todos os cantos da casa à procura do chocolate que a vó, carinhosamente, fazia sempre para ela.

Legal mesmo foi ver aquela carinha feliz, dando pulos de alegria, quando finalmente ela achou seu ovo de Páscoa.

Uma cena imperdível.

 Autor José Maria Cavalcanti

 

Anúncios

Coração Partido

caçadordeestrelas

 

CAÇADOR DE ESTRELA

Quis parar a ampulheta

Dar o céu só para tê-la

E como uma borboleta

Voou ao céu tal estrela

E a rua ficou tão vazia

Cadê vida sem um sol

Escuridão levou o dia

Volta a ser o meu farol

É caminhada tão vazia

Tudo está sem sentido

Como viver em agonia

Com o coração partido

Autor José Maria Cavalcanti

Velejar

 

 

 

chiquequeda

VELA

no velejar

de forte vento

lá se foi pescar

céu um breu sem luz

 o coração num tormento

e a alma agarrada em uma cruz

na fúria doce, qual um mar

a vela é como uma toca

quase a se afundar

agita a pororoca

e o toco de vela

pouco iluminar

irada procela

quer ceifar

vida vela

Autor José Maria Cavalcanti

Lição de Voo

pob

imagesCA35XYPQ

VALENTE

Covarde e traiçoeiro era seu modo de agir naquele árido e esbranquiçado pedaço de chão, chamado de cariri.

Ele já havia afugentado patativas, cauãs e arribaçãs que outrora se abrigavam por entre os galhos e as poucas sombras dos angicos, imburanas ou juremas. Com sua cara feia e instinto matador, o animal malvado mantinha todos em alerta.

Ficava sempre posicionado num lugar estratégico, à espreita, aguardando com paciência suas vítimas cruzarem o azul do céu.

Não só o espaço aéreo, até mesmo no solo seco, ele estava sempre pronto para dar seu bote certeiro.

Carancho, como todos o chamavam, pousava imponente, na parte mais alta de um xique-xique ou num galho seco de mandacaru, com seu vistoso solidéu negro sobre a cabeça. A cara avermelhada e aquele temível bico adunco era mais preciso e cortante que uma faca afiada. O longilíneo corpo emplumado, em preto e branco, era erguido por compridas pernas, possuindo nas extremidades garras pontiagudas, usadas para rasgar suas presas.

Cobras e lagartos também não podiam dar bobeira naquele chão ressecado e castigado pela falta de chuvas. Os répteis, pequenos e grandes, calculavam precisamente seus deslocamentos, procurando fazê-los com brevidade e rapidez. Do contrário, virariam banquete do terrível predador, principalmente naqueles tempos de escassez de alimentos.

Aquele enorme empenado era um exemplar das aves de rapina. Ele tocava o maior terror nos raros animais daquele ecossistema da caatinga brasileira.

Algo inusitado estava por acontecer nas proximidades de Lajes, não muito distante do ponto mais elevado do Estado.

Carancho nem desconfiava que seus domínios fossem ser invadidos por um plantel de atletas voadores. Eram pombos-correio que disputavam os 102 quilômetros (em linha reta) da prova de velocidade entre o Farol de Touros e o Pico do Cabuji.

O bando não estava longe dali, mas o líder do campeonato estava à frente, despertando os sentidos de Carancho, que havia detectado seu alvo com sua visão de grande alcance.

De imediato, ele alçou voo bem alto para poder mergulhar com muito mais velocidade de encontro a sua vítima. Para surpresa de Carancho, o inesperado prato apetitoso viajava a quase cem quilômetros por hora.

Embora estivesse focado no regresso veloz, Valente percebeu que havia perigo mais adiante, acelerando um pouco mais.

O pombo voador pressentiu que o inimigo havia mergulhado em sua direção, mas aguardava estar mais próximo para tentar realizar alguma esquiva.

Quando Valente se deu conta que poderia ser abatido, fez uma manobra súbita em pleno ar, dando uma quebrada de asas. Aquilo desconsertou Carancho, que havia perdido a primeira investida.

Enquanto Valente travava uma luta por sua sobrevivência se desviando dos ataques do inimigo, viu o bando passar bem alto em direção ao objetivo final.

A grande vantagem que havia colocado sobre seus concorrentes havia desaparecido com aquela perda de tempo para escapar daquele temível predador. Embora soubesse que necessitava se livrar rapidamente daquelas garras afiadas, sabia que teria que lutar um pouco mais, já que o adversário não desistiria tão facilmente.

No segundo intento, o caçado fora mais esperto, mas o caçador deu início a sua terceira tentativa. Carancho mergulhou novamente, acercando-se o mais que podia. Quando percebeu que o pombo iria quebrar asas de novo, desferiu um golpe certeiro, que fez Valente perder velocidade e altura.

O ataque facilitou o serviço para Carancho, que alcançou e agarrou Valente em pleno voo.

Carancho estava satisfeito com o fim do combate, indo direto ao solo. Ele estava quase sem forças pelo grande esforço empreendido contra sua presa, que agora se encontrava desfalecida e imobilizada em suas garras.

Carancho pousou com sua vítima no chão e finalmente o soltou para poder se banquetear e recuperar suas energias.

Quando ia desferir a primeira bicada, Valente recobrou os sentidos e agiu rapidamente para voar pra longe da morte certeira.

Surpreendido com a fuga, Carancho já não tinha ânimo para uma nova perseguição.

Carancho teve seu orgulho abatido, principalmente porque se deu conta que os olhos da floresta rasteira haviam presenciado sua primeira derrota.

Valente não só dera uma lição no grandalhão, mas também ensinou a vencer aquele inimigo comum.

Valente, já livre, voou bem alto para buscar recuperação na prova.

Sabia que perdera minutos preciosos, mas não iria desistir nunca, principalmente depois de vencer aquele combate terrível.

Como já havia perdido boa parte do seu peso com o desgaste dos noventa quilômetros já realizados, agora estava mais leve, o que facilitava o aumento da sua velocidade.

Aqueles últimos 12 quilômetros seriam decisivos para ele, o que incomodava um pouco eram os ferimentos provocados pelas unhas cortantes do malvado agressor. Verificou que seu sentido de orientação estava ainda mais aguçado e que a anilha de identificação continuava presa à perna, estando perfeitamente intacta.

Como a sorte ajuda aos que lutam, de repente, ventos alísios sopraram na sua cauda com mais força, coisa incomum naquela região, aumentando seu desempenho aéreo.

Depois de um esforço incrível, já era possível ultrapassar o primeiro concorrente. Um segundo grupo de aves estava um pouco mais adiante, o que aumentava a vontade de ir mais rápido, atingindo seu limite máximo de velocidade.

O seu GPS interno dizia que estava muito perto do pouso de chegada, restando a subida até o alto do pico, que está a 590 metros de altura. Aquela última etapa representava um grande esforço na reta final.

Faltando menos de um quilômetro, Valente já se via emparelhado com os demais concorrentes, mas estava praticamente esgotado. Se quisesse ganhar, sabia que necessitava arrancar uma força extra naquele finzinho do evento mais importante para os columbófilos da região do semiárido.

Sentiu de repente que na subida havia ganhado quase um corpo de vantagem, mas não queria correr riscos e acelerou mais o ritmo, sendo o primeiro a atingir o topo do Pico do Cabuji.

O juiz segurou o primeiro pombo a pousar no pico e gritou a inscrição da anilha: número 113 – Valente! O relógio marcador indicava o tempo: 59 minutos e 33 segundos – um novo recorde!

Que vitória incrível e merecedora, além do mais, fora estabelecida uma nova marca na competição.

Depois da entrega do prêmio e das análises posteriores é que todos perceberam que o ganhador, além de vencer a prova, havia também se livrado de algum predador pelo caminho, salvando o grupo de possíveis ataques.

Isto fez maior aquele feito e demonstrou mais uma vez a garra e a vontade de vencer de um pombo-correio.

Tudo isso fez ver que, além de vitorioso, era um valente.

Autor José Maria Cavalcanti

Ínstar

 

 

 

borboletitass

mariposas

Medo de Voar

Ali na Rua São José, o Baobá do Poeta enchia de sombra lado e meio dos tetos e a fachada avermelhada de uma casa pequenina, afigurando-se mais volumoso naquele início de manhã.

Os transeuntes presos às correrias do asfalto nem se deram conta que, no alto daquela copa de árvore, ocorria uma explosão de liberdade.

Depois da mudança da forma, o novo ser se livrou daquela gosma pegajosa que ainda insistia em atar seu corpo à superfície grossa daquele espécime gigantesco da paisagem natalense.

Enquanto isso, o invólucro, que antes servia de camisa de força, finalmente se desprendeu, rodopiando em queda livre ao encontro do chão.

Livre daquela amarra, sentiu-se muito leve, parecendo que a força da gravidade não mais atuava como era comum no seu antigo corpo.

Enormes patas substituíram as muitas pequeninas e do seu dorso se destacavam enormes asas. O multicolorido visual contrastava com a outrora forma longilínea e esverdeada.

Antenas captavam aromas suaves que exalavam dos canteiros de flores, exercendo sobre ela uma grande atração. Os olhos novos a faziam perceber tudo a longas distâncias.

Levou um certo tempo para reaprender a lidar com as novas habilidades.

Enquanto maquinava o novo e astuto intelecto, aspirou a brisa suave que soprava da encosta marítima, enchendo de ar suas narinas e seus alvéolos laterais.

Finalmente percebeu ter alçado outro patamar de vida e sentiu que uma nova missão lhe fora confiada: fecundar os campos floridos da terra, ou seja, levar os grãos de pólen das anteras para o receptor feminino, chamado estigma.

Sentiu-se impelida a voar, movida por alguma razão instintiva, mas, de repente, bateu-lhe medo, talvez por se dar conta da altura em que se encontrava.

Aquele estranho e incompreensível sentimento era próprio da vida passada.

Ora, qual o porquê daquela sensação? Afinal a natureza havia transmutado ser corpo, transformando-a em um ser alado.

Como havia ficado muito tempo no casulo sem roer qualquer folhinha, sentia-se fraca, por isso não podia impelir seu corpo. Os músculos novos, embora resistentes, estavam fracos.

Necessitava se alimentar, mas já não dispunha de mandíbula para triturar o alimento sólido. De sua boca, aparecia uma espécie de tubo, indicando que sua ingestão seria apenas de líquidos – água, néctar das flores e suco de frutas.

Pressentiu que não havia muito tempo de vida, que necessitava se mover, como se mundo dependesse apenas dela.

De pronto, depois de motivada, seus olhos avistaram outro ser de sua espécie, que parecia bailar na corrente de ar, cheia de graciosidade.

Aquele era o estímulo que necessitava.

Começou lentamente a esticar bem o corpo, assim o sol podia aquecer toda sua envergadura. Em seguida, iniciou um exercício de fechar e abrir as asas, até que a temperatura do seu corpo atingiu 30 graus.

De repente, uma força inexplicável varreu de sua mente as antigas informações que ainda restavam da vida de inseto rastejador.

Naquele exato momento, atirou-se do alto do baobá. Seu corpo flutuou naturalmente, bateu asas e voou.

E nela já não havia mais medo.

Autor José Maria Cavalcanti

Toquinho

ANÁLISE DA LETRA DA MÚSICA

O CADERNO

Toquinho

Sou eu que vou seguir você

Do primeiro rabisco até o beabá.

Em todos os desenhos doloridos vou estar

A casa, a montanha, duas nuvens no céu

E um sol a sorrir no papel…

Sou eu que vou ser seu colega

Seus problemas ajudar a resolver

Te acompanhar nas provas bimestrais você vai ver

Serei, de você, confidente fiel, se seu pranto molhar meu papel…

Sou eu que vou ser seu amigo

Vou lhe dar abrigo se você quiser

Quando surgirem seus primeiros raios de mulher

A vida se abrirá Num feroz carrossel

E você vai rasgar meu papel…

O que está escrito em mim comigo

Ficará guardado se lhe dá prazer

A vida segue sempre em frente

O que se há de fazer…

Só peço  a você

Um favor se puder

Não me esqueça

Num canto qualquer.

CADERNO – ANÁLISE

Esta música, de autoria de Toquinho, faz parte de um álbum dedicado às crianças, intitulado Casa de Brinquedos, que também deu nome ao um show exibido pela Rede Globo, em 1983, para homenagear os baixinhos.

Com ela, Toquinho, faz uma belíssima homenagem ao velho companheiro de meninas e meninas, durante várias fases da vida.

E essa paixão pelo caderno começa logo cedo, muito antes das primeiras letras.

Já na infância, a criança percebe que ela pode transpor para aquelas folhas em branco a codificação do pensamento. Se dá conta que todas as imagens e ideias poderão ser impressas no papel, o qual guardará por um longo tempo tais informações, desde que bem preservado.

De posse dos conteúdos reservados ou até mesmo secretos do possuidor, o caderno passa a ser alvo de controle, não podendo cair nas mãos de pessoas indesejadas, por isso mesmo que algumas meninas põem até cadeado naquele que exige maior restrição ou o guardam em esconderijo ou lugar inacessível.

Tudo começa ao chegar nas mãos do estudante, e aquele cheirinho de coisa nova do início de cada ano letivo ficará na memória para sempre. Logo ele começa a ser preenchido, passando a conter anotações, exercícios e até as confidências sobre os primeiros amigos e amores.

Por isso o caderno remonta milhares de lembranças guardadas, como um  velho baú de saudades.

“Sou eu que vou seguir você

Do primeiro rabisco até o beabá

 Em todos os desenhos coloridos vou estar

A casa, a montanha, duas nuvens no céu

E um sol a sorrir no papel…”

A mãe, logo que pode, entrega na mão da criança o primeiro caderno, na intenção que ela possa ter o primeiro contato com aquele que será companheiro por longa data.

Aos poucos, a criança vai se dando conta que ali poderá soltar a imaginação, que a linguagem não verbal e verbal podem ser codificadas sob a forma de letras e que o caderno irá servir de uma espécie de reservatório de ideias e pensamentos.

Enquanto isso, ela irá riscando e rabiscando, aprendendo a escrever cada letrinha e depois a fazer associações de letras e de palavras.

Não só isso, descobrirá também que uma imagem fala por mil palavras. Por isso mesmo se comunicará também por meio de desenhos.

Nessas primeiras artes, com certeza ali estará “a casa, a montanha, duas nuvens no céu e um sol a sorrir no papel”.

Digo isso porque sei que alguns atos são universais, principalmente estes, que têm a ver com o desenvolvimento da psquê humana.

“Sou eu que vou ser seu colega

Seus problemas ajudar a resolver

Te acompanhar nas provas bimestrais você vai ver

Serei, de você, confidente fiel, se seu pranto molhar meu papel…”

O caderno é sem dúvida o amigo inseparável do estudante. Ele está presente em todos os momentos, dos apontamentos das matérias aos exercícios, às provas mensais, bimestrais e finais.

Ele não somente serve de suporte do conhecimento intelectual, mas também ampara e consola nas horas em que o coração fala mais alto. Na alegria ou na tristeza, é o confidente fiel, servindo, inclusive, para absorver as lágrimas de um possível pranto ou de um simples desabafo.

“Sou eu que vou ser seu amigo

Vou lhe dar abrigo se você quiser

Quando surgirem seus primeiros raios de mulher

A vida se abrirá Num feroz carrossel

E você vai rasgar meu papel…”

Como amigo, sempre disponível, pronto para sempre dar a mão, conduzindo a menina até que ela se transforme numa linda mulher.

O carrossel representa o fluxo cíclico e contínuo da vida. É nele que adultos e crianças se divertem. Montado no cavalinho, subindo e descendo, pequenos aventureiros se lançam para a frente.

Como os relacionamentos amorosos, nos quais nos divertimos e nos alegramos quando estamos bem no alto, felizes; só que noutras vezes podemos estar na parte baixa, em pranto ou vivendo algum aperto.

Nessa hora não entendemos o mover da vida e o motivo de tanto sofrimento. Chateados, sentimos vontade de eliminar os vínculos daquela relação e achamos que rasgar o papel do caderno resolve tudo, justo aquela folha que guardava a lembrança daquele primeiro amor ou de um momento feliz.

“O que está escrito em mim comigo

Ficará guardado se lhe dá prazer

A vida segue sempre em frente

O que se há de fazer…”

Guardador de segredos, como um container de confidências íntimas, o papel, passiva e gentilmente, recebe toda mensagem escrita, como um anfitrião a dar boas-vindas.

Ele não é apenas um suporte com riscas paralelas para se fazer os apontamentos escolares. Aquelas brancas linhas podem guardar mais que isso, além de simples dicas do professor sobre uma determinada matéria.

As meninas, por serem mais emotivas, não se separam dele jamais, guardam um especial ou vários, tudo com muito carinho para depois reviver as mais doces lembranças.

Tudo ficará ali, arquivado, até quando for conveniente, mesmo quando aquilo já não tiver tanta importância pela oportunidade passada.

É assim que tudo se dá, porque a vida segue seu rumo, não para.

“Só peço  a você

Um favor se puder

Não me esqueça

Num canto qualquer.”

O caderno, na personalidade do amigo e companheiro inseparável, também tem sentimentos e se ofende com a infedilidade, com o desprezo ou abandono.

Como que prevendo o fim da relação ou sabedor de que tudo um dia termina, suplica:

“Não me esqueça num canto qualquer”!

Autor José Maria Cavalcanti

Análise de Letra de Música

AQUARELA

Letra de Vinícius de Moraes

Música de Antônio Carlos Pecci (Toquinho)

Acho que se as letras do livro de poesia do Vinicius, Arca de Noé, não tivessem sido musicadas por Toquinho, elas fariam parte de apenas mais um bom livro voltado para as crianças.

Estimulado pelo parceiro poeta, Toquinho criou verdadeiras pérolas musicais que há muitos anos vêm embalando gerações.

Uma das que mais me impressiona é esta. A letra é impecável e a música perfeita. É uma obra-prima, saída da genialidade desse músico incrível.

Com a péssima qualidade de muitas músicas do cenário musical brasileiro, o acervo de Arca de Noé e Arca de Noé II é um verdadeiro presente para os educadores, que realizam com este material trabalhos psicopedagógicos maravilhosos com o público infantil.

Com tantas crianças vivendo em cenários cruéis e de muita miséria, a linda letra e bela música fazem com que elas possam sonhar, imaginar e esquecer um pouco dos seus ais.

Até hoje, Aquarela resgata em muitos adultos a criança que está em cada um de nós.

Aquarela foi gravada em Italiano e em Espanhol, fazendo também muito sucesso nos dois países e em tantos outros países que falam esses idiomas.

Aos 23 anos, Toquinho já acompanhava Chico Buarque nos seus shows pela Itália. Em 1970, compôs com Jorge Benjor o sucesso “Que Maravilha” e, no mesmo ano, segue com Vinícius para Buenos Aires, começando uma parceria que durou muitos anos, resultando daí 120 canções, 25 discos e mais de mil espetáculos. Aquarela é um grande destaque desta famosa dupla.

Análise da Letra da Música

Numa folha qualquer Eu desenho um sol amarelo E com cinco ou seis retas É fácil fazer um castelo…

Não precisa ser uma folha especial, papel de seda ou algo do tipo. Pode ser papel de pão, num papelão ou mesmo no piso do chão. Qualquer lugar é perfeito para se desenhar. Já no primeiro verso, o poeta não dita normas, mas dá liberdade de expressão às crianças.

Quem nunca desenhou um sol amarelo, motivado pela letra desta música ou que não tenha feito um castelo com alguns pares de retas. É mais fácil que construir as fortalezas medievais com a areia da praia.

A letra e a melodia de Aquarela nos fazem viajar para dias ensolarados e bonitos, como daqueles vistos nas belas histórias infantis de Charles Dickens, Irmãos Grimm, Andersen, Charles Perrault, Carroll, entre outros.

Corro o lápis em torno Da mão e me dou uma luva E se faço chover Com dois riscos Tenho um guarda-chuva…

Como num passe de mágica, contornando os dedos da mão com o lápis, surge fácil uma perfeita luva. E o poeta vai brincando e fazendo imaginar quão gostoso é se perder nesse universo infantil, no mundo de faz de conta.

Muitas atividades escolares são realizadas a partir desta letra e música. Usando lápis, giz colorido ou tintas, as crianças se divertem e dão asas para a criatividade.

Se um pinguinho de tinta Cai num pedacinho Azul do papel Num instante imagino Uma linda gaivota A voar no céu…

E, se de repente, algo de errado possa acontecer, não tem problema, transforma-se o pequeno descuido num lindo pássaro a voar no céu. Como um artista, dando formas inesperadas na sua tela. Talvez seja o poeta a instigar nas crianças o surgimento de novos Monet, Renoir, Picasso ou um Di Cavalcanti.

Vai voando Contornando a imensa Curva Norte e Sul Vou com ela Viajando Havaí Pequim ou Istambul Pinto um barco a vela Branco navegando É tanto céu e mar Num beijo azul…

Neste mundo de ficção não há limite de tempo ou de espaço. A grande linha do Equador é como um tobogã gigante a nos levar de um lado a outro do globo em fração de segundo. Escorregando ou navegando num barco branco entre o céu e o mar, tudo é mágico, como um beijo azul  – o tocar das duas lindas superfícies imensas, a celestial e a marítima.

Entre as nuvens Vem surgindo um lindo Avião rosa e grená Tudo em volta colorindo Com suas luzes a piscar…

O sonho de voar está em toda criança. Quem ainda não sonhou estar voando, sendo pássaro ou mesmo como passageiro de um avião a cortar as nuvens, que nos parecem flocos de algodão, com todas suas luzes a piscar. Lá de cima, tudo se faz mais lindo, como o primeiro astronauta a contemplar a terra, aquela imensa bola azul.

Basta imaginar e ele está Partindo, sereno e lindo Se a gente quiser Ele vai pousar…

Fingindo ser o piloto da aeronave, você vai para onde quiser e pousa quando achar que é hora. Principalmente quando o céu é de brigadeiro, “sereno e lindo”, fica mais perfeito ainda.

Numa folha qualquer Eu desenho um navio De partida Com alguns bons amigos Bebendo de bem com a vida…

A vida é feita de partidas e chegadas, por isso, devemos aproveitar ao máximo viver de bem com todos, estar bem coladinho aos amigos, comemorando sempre.

De uma América a outra Eu consigo passar num segundo Giro um simples compasso E num círculo eu faço o mundo…

Como Alice, entrando na toca do coelho, um espécie de mecanismo de fuga da realidade, descobrindo outro mundo: O País das Maravilhas. Num piscar de olhos, tudo em volta, você pode transformar, com um simples giro de compasso.

Um menino caminha E caminhando chega no muro E ali logo em frente A esperar pela gente O futuro está…

O poeta quer levar, na figura do menino, as crianças ao futuro, carregadas pela imaginação. Não presa a regras ou metodologias cansativas, de forma colorida e engraçada, cheia de alegria. Também nos mostra que na vida há obstáculos, os “muros”, mas que, com criatividade, podemos ultrapassá-los.

E o futuro é uma astronave Que tentamos pilotar Não tem tempo, nem piedade Nem tem hora de chegar Sem pedir licença Muda a nossa vida E depois convida A rir ou chorar…

Às vezes queremos determinar o futuro de nossos filhos, como eles devem ser e aquilo que devem fazer. Planejamos tudo, e o que acontece é que pouco sai como a gente quer. A frustração (o descolorirá) é grande, levando muitos pais a chorar ou, quando algo dá certo, é motivo de riso. Esquecemos que cada uma é uma individualidade, com personalidade própria, tendo um novo a ser trilhado, sem interferências.

Esse futuro é como uma “linda passarela” que vai se abrindo, conduzindo-nos pela mão, bastando ter sensibilidade para dar cada passo no rumo certo.

Nessa estrada não nos cabe Conhecer ou ver o que virá O fim dela ninguém sabe Bem ao certo onde vai dar Vamos todos Numa linda passarela De uma aquarela Que um dia enfim Descolorirá…

Autor José Maria Cavalcanti